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Carrego comigo a Igreja Mundial do Poder de Deus. É uma casinha que encolheu com os anos até chegar ao seu tamanho atual: uma caixinha de pedra que cabe na palma da minha mão.
Quando espio por suas janelas, me sinto um deus romano. Vejo o pastor com os seus braços para cima, esbravejando e prometendo o fim do mundo. Vejo os rostos dos fiéis carregados de atenção e ignorância.
Viagei para a Holanda com minha pequena igreja no bolço e agora passeio pelas ruas de Amsterdam. Do alto de uma ponte assisto as celebrações galvanizando a cidade, preenchendo tudo de cor e alegria. Homens andam de mãos dadas e sem camiseta. Mulheres se beijam e abraçam crianças sentadas nos seus colos. Seres míticos andam de salto alto. Faz sol e me sinto de bem com a vida.
Embaixo da ponte, percebo dois jovens sentados juntos na beira do canal. São loiros, de corpos atléticos e rostos limpo de expressão. Talvez sejam um exemplo de paz de espírito. Os dois dividem o dia como irmãos, calmamente observando as celebrações.
Lhes observo com uma pontada de inveja – não tenho mais a juventude que eles carregam tão facilmente. Mas, ao mesmo tempo, fico feliz de ver sua amizade, a maneira fácil em que dividem sorrisos – parecem anjos nos agraciando com sua presença.
Quando um deles olha pra cima e me percebe, abro as minhas mãos e lhe mostro a pequena igreja. Com a distância, não sei se ele reconhece o que carrego. Sorrio e faço uma oferenda ao lindo casal: viro minhas mãos para baixo e deixo a igreja cair na água e desaparecer.
Se você passear no meu bairro, não encontrará portões chiques ou palacetes feitos para a realeza inglesa. Não encontrará dois homens se beijando entre a multidão de famílias bangladeshianas que compõem a maioria dos habitantes desta parte de Londres. Por outro lado, se você for brasileiro, ficará feliz ao perceber a quantidade de restaurantes, mercearias e até mesmo cabelereiros da nossa terrinha que pipocam por aqui.
Meu bairro, Bethnal Green, conhecido por seus aluguéis baixos, vem atraindo brasileiros que no passado teriam preferido morar em Kensal Rise, um bairro no lado Oeste de Londres.
Minha parte favorita deste bairro são os canais. Utilizados principalmente por ciclistas e corredores, estas vias aquáticas são como um cartão postal de Amsterdam, com seus habitats naturais de vários pássaros e suas barcas que servem de moradias.

Shirley Valentine
Vivemos com aquela fantasia de que o melhor está em algum outro lugar. Isso vale igualmente para aqueles que tem dinheiro e para os que não tem nada. No filme Shirley Valentine, a protagonista – mãe e dona de casa – resolve largar tudo e passar duas semanas de férias na Grécia. Sua vida chegou a um impasse: não aguenta mais o marido, os filhos, a monotonia do dia a dia. Na Grécia, vive um romance passageiro, descobre o sol e o mar – resolve nunca mais voltar para a Inglaterra.
Ok, o filme é uma grande fantasia (e baseado numa peça teatral); mas fica aquela questão: por que as pessoas tem tanto medo de seguirem seus corações? Talvez são poucas as pessoas que atingem o ponto que não tem mais nada a perder, que jogam tudo para o alto.
Este é o filme predileto da Rainha Elizabeth II da Inglaterra. Enquanto assistia, fiquei pensando nela: será que ela se vê no personagem? Sonha em largar o marido e a família para ir morar num país com sol e praias lindas? Sonha em descobrir a si mesma? Acho que sim…
Ele nos visitou por cinco dias. Quando foi embora, meu namorado percebeu que ele havia esquecido um moletom no quarto de visitas: azul com duas listras amarelas, zipper, e o nome da cidade alemã Münster na frente. Lhe mandei um e-mail pedindo seu endereço em Frankfurt (onde mora a alguns anos) para eu poder lhe mandar o moletom por correio. Até agora, nada de resposta.
Quando caminho pelos canais de Londres à noite, música do meu iPod entrelaçando meus pensamentos, me lembro de quando eramos adolescentes. De como ele era lindo, e o quanto eu o amava. Ele ainda tem seu charme quinze anos depois, e muitas mulheres não conseguem lhe resistir. Quando ele está por perto, tenho as minhas defesas, a minha maneira de me proteger. Mas quando ele está longe, as músicas nostálgicas (The Smiths, Suede) que criaram nossa amizade me fazem lembra-lo como uma figura romântica e irreal. Nos canais londrinos vive minha imaginação.
Aquele ator que fazia o papel protagonista na novela Laços de Família agora aparece em todas as revistas de fofoca e sociedade. Continua lindo, agora na faixa dos 35 anos de idade, com um corpo malhado e moreno, dentes brancos e um sorriso aberto de engolir o mundo. Nunca lhe vêem com uma mulher no braço. Nunca se ouve falar que ele quer casar e ter filhos. Numa revista recente, ele aparece sorridente ao lado dos donos de uma pizzaria conceituada de São Paulo, vestindo uma camiseta roxa de seda justa que mostra o quanto vive na academia de ginástica.
Tantas festinhas, tantas conversas que não levam a nada. Numa noite fria na capital paulista, ele vê do outro lado do bar um homem loiro lhe observando. O homem sorri; seu rosto bronzeado tem uma beleza nórdica que lhe atrai. Trocam olhares durante a noite até que o homem se aproxima e se apresenta: se chama Guilherme e é o herdeiro milionário de uma família centenária. Vive em Paris.
Romance é coisa pesada para este ator global. Tem que tomar cuidado para que o paparazzi não lhe veja saindo de boates com homens; tem que manter seu segredo longe das más línguas que povoam os programas de fofoca na tarde televisiva. Nos braços de Guilherme, numa penthouse que fica acima da confusão da metrópole, sente pela primeira vez um sentimento de liberdade e proteção. Quando Guilherme lhe convida para um passeio em Paris, aceita sem hesitação.
Viajam em vôos diferentes. Mesmo na classe executiva, escondido atrás de óculos escuros, não escapa das fãs que pedem fotos e autógrafos.
Na noite de Paris, Guilherme lhe leva para jantar em seu restaurante favorito. Segura sua mão por cima da mesa, sem medo do que os outros fregueses possam falar. O ator fica com receios de ser reconhecido por algum brasileiro. Guilherme sorri e afugenta todos os seus medos. Lhe pede para abandonar a carreira artística no Brasil e morar em Paris.
O ator reflete na sua boa sorte, no amor que finalmente chegou à sua vida. Mas também não consegue parar de temer os comentários maldosos no Brasil, a falta que seu rosto fará nas revistas chiques. Guilherme é algums anos mais velho, nunca ligou para o que a elite brasileira pensava, e esta velho demais para se importar com o que os outros pensam de sua vida. Promete a seu amor muitos anos sossegados na capital francesa; verões no Mediterrâneo; viagems a Tokyo, Nova Iorque, Londres. O sonho é bom demais – como se fosse uma grande mentira perpretada por Deus. É melhor que qualquer papel de novela já lhe oferecido.
O ator estuda a beleza de Guilherme e se pergunta se conseguirão se amar até atingirem a velhice juntos.

…
Foto aérea do mercado Roque Santeiro, tirada por Sam Seyffert. O mercado é considerado o maior ao céu aberto na África.

Encontrei esta foto na rua Bethnal Green, no dia 2 de Fevereiro. Tinha ido acompanhar uma amiga a um caixa eletrônico quando o vi na calçada. Bethnal Green é um bairro tradicionalmente bangladeshiano; talvez este homem tinha acabado de chegar em Londres e estava retirando dinheiro do caixa quando a foto caiu de sua carteira; talvez estava à caminho de algum outro bairro.
Estas marcas vermelhas na foto são o símbolo do London Underground, o transporte público Londrino para os trens e metro da cidade. Esta foto provavelmente foi usada para uma carteira de transporte mensal ou anual.
Colei no meu diário. Ficará por lá até o dia que encontrar outra foto para lhe fazer companhia.
OzBus é uma nova agência de viagens que promove viagens de ônibus entre Londres e Sydney, Australia. O primeiro ônibus partiu de Londres no dia 16 de Setembro, carregando pessoas de várias idades e profissões, incluindo uma jornalista do Guardian. A cada duas semanas, esta jornalista escreverá uma reportagem detalhando o progresso da viagem. A primeira parte de sua reportagem está aqui.
Seria demais fazer uma viagem destas. A idéia de ficar sentado por 84 dias não me agrada mas, em compensação, quantas pessoas interessantes e aventuras devem estar no calendário destes passageiros. Em viagens deste tipo, as pessoas logo ficam amigas, ajudam umas as outras, se apaixonam, trocam massagens, etc. Se aprende muito sobre pessoas que vem de mundos diferentes do seu, sem contar as centenas de pessoas que você acaba conhecendo pelos países que vai passando.











