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Aqui em Londres não tem roça de melancia. As que eles vendem nos mercadinhos perto de casa parecem não ter gosto de nada – ou então carregam um sabor de fruta velha. Viajam para a Inglaterra de outros países, outros continentes – onde as roças não sofrem tantos meses de frio pelo ano.
Uma vez visitei uma cartomante no Cinco Conjuntos, Londrina. Ela me recomendou poemas escritos no século 19 por um escravo brasileiro. Ou era um romance? Não me lembro mais – sei que era uma obra prima (hoje esquecida), daquelas que te surpreendem quando descrevem dois homens se beijando. Nada que conseguisse entrar no folclore brasileiro hoje em dia.
A melancia era a fruta predileta do Michael Jackson. Também é a minha – a única coisa que temos em comum.
Se você passear no meu bairro, não encontrará portões chiques ou palacetes feitos para a realeza inglesa. Não encontrará dois homens se beijando entre a multidão de famílias bangladeshianas que compõem a maioria dos habitantes desta parte de Londres. Por outro lado, se você for brasileiro, ficará feliz ao perceber a quantidade de restaurantes, mercearias e até mesmo cabelereiros da nossa terrinha que pipocam por aqui.
Meu bairro, Bethnal Green, conhecido por seus aluguéis baixos, vem atraindo brasileiros que no passado teriam preferido morar em Kensal Rise, um bairro no lado Oeste de Londres.
Minha parte favorita deste bairro são os canais. Utilizados principalmente por ciclistas e corredores, estas vias aquáticas são como um cartão postal de Amsterdam, com seus habitats naturais de vários pássaros e suas barcas que servem de moradias.

Morrissey
Fui assistir ontem ao show de Morrissey em Brixton (um bairro na Zona Sul de Londres). Por coincidência, era o 4º aniversário da morte de Jean Charles de Menezes. Durante o show, Morrissey virou para a audiência e disse:
“Jean Charles de Menezes, nós nunca esqueceremos. Nunca, nunca, nunca.”
Brixton fica perto de Stockwell, onde Jean foi assassinado pela polícia inglesa quatro anos atrás.
Me emocionei com a homenagem de Morrissey porque percebi que ele está atento aos brasileiros que moram aqui e esta grande injustiça perpetrada pelas cortes inglesas. O show foi excelente, misturando músicas da sua carreira solo com as do The Smiths. Sou fã dele desde minha adolescência (já faz mais de vinte anos!) e o show ontem me lembrou por que lhe adoro e continuo a acompanhar sua carreira.
Um clipe do show:

Big Brother UK 10
Começa hoje a décima edição do Big Brother britânico, filmada numa casa nos subúrbios de Londres. Fotos da nova casa já apareceram na internet, monstrando que os participantes terão que viver num ambiente desprovido de comfortos pelos primeiros dias – sem água quente, cozinha e até mesmo cama. Batalharão por uma chance de entrar na casa “verdadeira”, onde então começará a luta por 100,000 libras. Como em edições anteriores, os participantes são proibidos de descutir votos ou o mundo exterior (algo que sempre achei ser um ponto a favor da edição britânica, e um ponto contra o Big Brother Brasil.)
De acordo com as revistas de fofoca, potenciais participantes incluem um brasileiro, uma Miss, virgems, gays, bisexuais, lésbicas, um irlandês e um paquistão. A maioria dos boatos são, com certeza, criações dos produtores do show, desesperados para criar interesse num formato que vem perdendo popularidade com os anos.
Quando me mudei para a Inglaterra, 8 anos atras, o show era campeão de audiência. O Ibope atingia altos pontos facilmente, e os participantes muitas vezes faziam uma graninha após o show terminar com apresentações, entrevistas, etc. Para mim, o show era sinónimo de verão: aquelas noites quentes em que a gente não tinha muito o que fazer e acompanhava os dramas e a comédia dos participantes. Mas com o tempo, o formato foi se desgastando e fui perdendo interesse. Sumiram os personagens interessantes – substituidos por pessoas desesperadas pela fama (e sem um pingo de charme.)
Fiz promessa ano passado de nunca mais assistir o show, mas agora com essa notícia de que vai ter um brasileiro na casa… estou em dúvida! Meu namorado já ficou bravo comigo e proibiu o programa na nossa TV.
Fotos da nova casa podem ser vistas aqui.
E ai, o que você acha do Big Brother?
Final de tarde ensolarado. Sinto o calor como se fosse pela última vez, como se eu fosse um turista da Antártica que tem somente um dia para usurfruir desta beleza.
Ouço um podcast sobre a história do movimento sufragista. Moro aqui em Londres no bairro onde elas se encontravam para organizar seus protestos, para imprimir seus panfletos reclamando dos direitos das mulheres. Se estivessem vivas hoje, ficariam horrorizadas com algumas destas muçulmanas britânicas que insistem em perder seus direitos e voltar à era medieval. Isso que da quando o pensamento religioso corroe a faculdade racional.
Céu azul claro. Memórias do Brasil. Patos, gansos e pombos no ar. Esportistas; pessoas fazendo caminhada. Casais com crianças. A água do lago coberta de pólen, fina como uma teia de aranha.

A Favorita
Descobri que todas as novelas recentes da Rede Globo (e algumas antigas) podem ser baixadas de graça pelo Orkut… pronto, acabou a minha vida social!
Morando em Londres, às vezes sinto saudades do que esta passando no Brasil – o que os amigos e a família dividem em conversas sobre programas de TV, personagens controversos de novelas. Agora posso assistir daqui e me sentir um pouco mais perto dos brasileiros.
Estou no momento assistindo “A Favorita” (estou no capítulo 25 – bem no começinho da estória). Escolhi esta novela porque quando visitei o Brasil no Natal, vi como todos estavam grudados na TV nos últimos capítulos. Me pareceu uma boa estória para seguir neste verão londrinense - uma mistura legal do tipico melodrama do gênero com romance policial.
Sim… sou noveleiro confesso!
O parque Victoria está cheio de: árvores, bêbados, flores, grama, cachorros, beleza.
Bateu fome e cansaço. Fim de tarde, primavera. Os bêbados tentando pescar no lago do parque. Pessoas fazendo ginástica após o trabalho. Cisnes e patos à procura de comida. Cadê os pombos? Música do Bauhaus no meu ouvido, conferindo a tudo um ar tenebroso. Talvez este seja o último fim de tarde do planeta. Nosso último dia. A vida termina aqui, começa ali. Os mortos vivos se erguem do lago e caminham em minha direção (estou sentado num banquinho que fica de frente a água). Cheiro de cigarro no ar puro.
Casais passeam de mãos dadas. Estou com vontade de comer pão com manteiga. Tomar café com leite. Toddy. Pastel. Mergulhar na piscina. Férias eternas. Aquele sol de infância que não faz mal a ninguém.
Estou no porão do teatro Royal Court, esperando amigos chegarem para que possamos ver a peça The Fever, de Wallace Shawn. Um dia lindo em Londres – depois de oito anos nesta cidade, cheguei a conclusão que a primavera é a melhor época para curti-la. Um sol seco, um vento frio, flores desabrochando para todos os lados, casacos de inverno de volta ao armário e cores pelas calçadas. Mais pele, mais sorrisos.
Estou bebendo uma cerveja forte chamada Leffe. Tem gosto de canela – deliciosa. Comprei um cartão de aniversário para a minha cunhada – o tipo de cartão que não se encontra no Brasil.
As pessoas do lado ocidental de Londres (onde se encontra este teatro) são muito diferentes das do lado oriental (onde eu moro): playboys limpinhos e certinhos; mais dinheiro no ar; atitudes mais conservadoras. Falta a energia punk do outro lado da cidade. Falta tensão. E tesão?

Canalside garden centre
Originally uploaded by Lou-EB
Fomos a um centro de jardinagem perto de casa, que fica à beira do Victoria Park e Regent’s Canal. Compramos plantas para o nosso apartamento. Na ida, quase nos esbarramos em dois moleques de bicicleta, aparentemente roubando uma terceira bicicleta. Eles nos xingaram e com certeza teriam pedalado de volta para um confronto se tivessemos revidado.
Como dói engolir um desaforo!
Mas aqui em Londres, é a coisa mais sábia ficar na sua: quem parte para conflitos com os adolescentes daqui muitas vezes termina com uma faca na barriga.
Está um dia cinza, como de constume. Temos filmes franceses e episódios do Lost para costurar o fim da tarde. A rádio esta sintonizada na BBC3, que toca somente música clássica. Meu espírito esta tranquilo (especialmente com essas novas plantas e flores que adicionamos ao apartamento.) A sala ganhou vida e a nossa varanda vai virar uma floresta de samambaias.
Ele nos visitou por cinco dias. Quando foi embora, meu namorado percebeu que ele havia esquecido um moletom no quarto de visitas: azul com duas listras amarelas, zipper, e o nome da cidade alemã Münster na frente. Lhe mandei um e-mail pedindo seu endereço em Frankfurt (onde mora a alguns anos) para eu poder lhe mandar o moletom por correio. Até agora, nada de resposta.
Quando caminho pelos canais de Londres à noite, música do meu iPod entrelaçando meus pensamentos, me lembro de quando eramos adolescentes. De como ele era lindo, e o quanto eu o amava. Ele ainda tem seu charme quinze anos depois, e muitas mulheres não conseguem lhe resistir. Quando ele está por perto, tenho as minhas defesas, a minha maneira de me proteger. Mas quando ele está longe, as músicas nostálgicas (The Smiths, Suede) que criaram nossa amizade me fazem lembra-lo como uma figura romântica e irreal. Nos canais londrinos vive minha imaginação.











