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Lhe escreveu uma carta de amor.  Lhe desejou um feliz aniversário.  Sabia que não haveria resposta.  Mandou a carta de qualquer maneira.  Imaginou a carta atravessando o Oceano Atlântico como uma esquadra à deriva; imaginou a carta passando de uma mão à outra, depois enterrada no fundo de uma bolsa de carteiro.  Talvez terminasse sua viagem na cozinha errada, aberta por mãos estrangeiras e curiosas; ou então numa pilha de cartas de uma residência vazia, destinada a mofar e amarelar com o tempo.  Palavras românticas perdidas para sempre.

Depois de uma semana, começou a esquecer o que tinha escrito.  Sempre se orgulhara de sua memória prodígia, de sua facilidade de lembrar tudo.  Agora via a suas próprias palavras - aquelas criações poéticas que dariam inveja à Pablo Neruda - sumirem por ralo abaixo.  Imaginou o amado do outro lado do mundo recebendo a carta; mas não conseguiu imaginar seu rosto, sua reação ao abrir o envelope e ler o conteúdo.

E se a carta estivesse cheia de ódio ao invés de amor?  E se estivesse esquecendo todas as palavras porque tinha cometido um erro, um ato brutal contra seu amado?  Tentou telefonar e checar se a carta já tinha chegado mas a linha só dava ocupado.  Visitou uma cartomante cigana que lhe previu um futuro nebuloso.  Andou sem parar pelas ruas da cidade, tentando limpar a cabeça e lembrar o conteúdo da carta.  Nem pãozinho de padaria e nem cafézinho ajudava; muito menos pastel de feira, suco de melancia, pão de queijo ou kibe.  A barriga crescia em proporção com o desaparecimento da memória.

Um dia, esqueceu aonde morava.  Esqueceu do amado, da carta.  Esqueceu de tudo, menos das praias da cidade, e do mar que sempre brilhava no horizonte com o pôr-do-sol.

Capitães da Areia

Jorge Amado, Capitães da Areia, 1937
Quando a primeira edição de Capitães da Areia apareceu em 1937, foi apreendida e queimada em praça pública pelas autoridades do Estado Novo. O romance conta a estória de um grupo de moleques que vivem nas ruas de Salvador aprontando roubos e brigas (tipo as crianças no Cidade de Deus). Mas, na verdade, o objetivo principal de Amado ao escrever este romance era atacar os oligarcas do Nordeste que mantinham os pobres num buraco fundo, e a igreja corrupta que fingia não ver a pobreza. Atacou com este romance que pintava as crianças como potenciais soldados de uma revolução comunista no Brasil.

Os meninos abandonados vivem num trapiche velho na praia, usando o dia para “trabalharem” nas ruas de Salvador. São liderados por um garoto loiro de dezesseis anos, Pedro Bala, filho de um líder trabalhista morto anos antes num confronto com as autoridades. Pedro lidera vários meninos que por uma razão ou outra terminaram na rua. Às vezes recebem visita e ajuda de um padre com tendências comunistas, ou de uma Mãe-de-Santo e de um trabalhador do cais que fora amigo do pai de Pedro.

Algumas das cenas no livro são chocantes e controversiais ainda hoje: os meninos transam ums com os outros na falta de mulher, ou estupram meninas que fazem a besteira de atravessar a areia à noite. Quando os meninos caem nas mãos de mulheres mais velhas e ricas, abusam de sua boa vontade para lhes roubar ou formar relações sexuais - são descritos como homems amargurados presos em corpos de meninos.

O que decepciona no romance é o jeito que Jorge Amado tenta enfiar o Comunismo goela abaixo do leitor. Ele usa os meninos e o padre bonzinho como símbolos da luta dos trabalhadores contra os capitalistas de uma maneira que não permite os personagems se desenvolverem com a trama. Amado abusa também do sentimentalismo, especialmente quando a menina Dora se junta aos meninos e vira uma mãe para eles. Mas fora isso, o livro prende o leitor do começo ao fim num enredo cheio de ação e suspense (atípico de muita coisa que Amado escreveu depois.)

Verde Efêmero do Éden - Camila Fernandes

Camila Fernandes, Verde Efêmero do Éden, 2004
Este conto de ficção científica é baseado no universo Slev, com personagens da coleção Nave Profana. Os protagonistas, abduzidos por um ser misterioso chamado O Zelador, são forçados a participarem de missões em várias eras históricas e planetas distantes, sem explicações. Zandra, da lua-planeta Giron’dha, acorda num planeta paradisíaco, repleto de plantas e criaturas assombrosas e belas. Mas Zandra não é ser humana, embora tenha o poder de imitar o corpo de uma mulher terráquea; ela é uma criatura vegetal siente, e sente uma conexão profunda com a flora do planeta - conexão que porá sua vida em perigo quando encontra uma sedutora planta carnívora.

Se você nunca leu um conto ou livro de ficção científica de uma autora brasileira, aqui está sua chance. Em poucas páginas, Camila cria uma personagem cativante e um mundo misterioso que preenche o leitor de curiosidade. Algumas surpresas aparecem no final do conto, juntamente com a promessa de mais aventuras neste Éden. Fico torcendo para que Camila resolva escrever logo logo um grande romance baseado neste mundo e personagems, ou pelo menos escreva uma continuação para este conto.

Este ebook pode ser baixado de graça aqui.

Jorgeval era aquele típico pastor de igreja evangélica: roubava no domingo para poder aproveitar a semana sem neuras com falta de grana no bolso. Usava bem o dinheiro doado pelo povinho pobre e desinformado: comprava carros importados, relógios caros, pulseiras tipo cafetão, e muita - mas muita - caipirinha. É claro que tomava todo o cuidado do mundo para não ser reconhecido pelos ignorantes que frequentavam sua igreja - morria de medo de ter sua vida dupla desmascarada. Usava perucas, disfarces, óculos escuro, carro blindado com vidro fumê quando saia pra balada. Vivia na paranóia geral.

Jorgeval tocava aquela vida de santinho do pau oco já fazia algums anos. Começava a achar que nunca seria descoberto. E como poderiam descobrir a verdade quando se especializava a cada ano no roubo e na mentira? As vezes até acreditava nas baboseiras que lia na bíblia e falava em voz alta na igreja (que antes fora um salão de bingo.) Sua mãe, que não perdia um sermão e sempre fazia questão de sentar na primeira fila, chorava por horas a fio quando via seu filho (que ela sonhava um dia virar um homem religioso de verdade) gastando o dízimo dos outros em prostitutas baratas e garrafas de uísque falsificado do Paraguay.

Certo dia, Jorgeval passeava na praia de Ipanema numa tarde ensolarada, feliz da vida. Acabara de cometer vários pecados e fazia planos para viajar para os Estados Unidos pra fazer compras em Nova Iorque. Foi quando percebeu uma figura no horizonte, vindo em sua direção. Foram se aproximando um do outro. Jorgeval percebeu que era um homem de corpo torneado, moreno e bonito. Usava uma sunguinha branca como a nuvem mais angelical do céu. O rapaz percebeu que Jorgeval lhe olhava; sorriu marotamente.

Foi como se um relâmpago atingisse Jorgeval naquele momento. Percebeu na beleza pura do rapaz algo que não tinha - algo que tinha jogado fora a muito tempo atrás. Seria aquele rapaz um anjo vindo para lhe castigar, para lhe dar uma mensagem de Deus? Seria ele um anjo para lhe mostrar um novo caminho?

O rapaz chegou a virar a cabeça quando passou, como que checando se Jorgeval estava realmente interessado nele. Jorgeval sentiu que chegara numa encruzilhada. Ou seguia aquele rapaz - aquele Anjo Gabriel dos Trópicos - ou continuava indo em frente, fazendo maldade aos outros e destruindo sua alma. O rapaz caminhava na direção do pôr-do-sol; um halo dourado lhe cobria o corpo. Jorgeval respirou fundo e foi em direção à luz.

A História de Carlos (Não o Chacal)

Luiz Erbes, A História de Carlos (Não o Chacal), 2007
Carlos é um adolescente pobre como qualquer outro em Caxias do Sul, com dúvidas a respeito do que fará com sua vida. Um dia é seduzido por Geni, vizinha mais velha e mulher desejada no bairro. Este momento é o dia mais feliz de sua vida, embora seje também o dia fatídico que marca uma mudança em sua personalidade, o começo de sua vida adulta, onde acabará cada vez mais ligado à criminalidade e as drogas. O conto se desenrola em Caxias do Sul e mostra um pouco da vida de pessoas nesta parte do Brasil que vivem do contrabando uruguaio e paraguaio. Luiz Erbes faz uma interessante exploração de um personagem que não consegue encontrar amor entre as mulheres conforme sua vida se afunda na companhia de criminosos.

Voce pode baixar o conto gratuitamente aqui. Visite tambem o blog do autor do conto, Luiz Carlos Erbes.

Vi no blog Aprendendo que hoje é o Dia Mundial da Poesia. Você pode ler mais a respeito no site da Unesco.

Meu favorito poeta brasileiro é Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987):

Mãos dadas
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

A Estrada, de Cormac McCarthy

Cormac McCarthy, A Estrada, 2006
Um pai e filho atravessam a pé um pais devastado (provavelmente os Estados Unidos), procurando escapar o inverno implacável. Eles vivem nos últimos dias do planeta Terra, após um desastre sem nome que matou todos os animais e plantas, e jogou o planeta na escuridão. As poucas pessoas que sobreviveram vivem escondidas, aterrorizadas; ou fazem parte de gangues de canibais. Os horrores cometidos por estas gangues embranqueceriam os cabelos de Stephen King.

Embora seje um romance curto, de linguagem poética, tive problemas em termina-lo. A desolação e os horrores descritos faria qualquer um procurar uma garrafinha de Prozac. O crítico Inglês Charlie Brooker acertou em cheio quando disse que o romance deveria vir junto com uma navalha, para o leitor cortar os pulsos. Em compensação, existe um raio de esperança correndo a narrativa que transforma o romance num clássico dos tempos modernos, e faz juz aos varios prêmios que o autor ganhou.

Vale a pena prestar atenção no que o livro tem a dizer sobre Deus. Neste mundo, Deus morreu; não existem igrejas; pomares de maçãs estragadas lembram um Jardim do Éden abandonado; mas mesmo assim um dos personagems - o filho - carrega em si “a chama”, a esperança do ser humano para um mundo melhor, para a volta de Jesus e a salvação de todos. Acho que ateístas e pessoas religiosas gostarão deste livro; e com certeza terão muito assunto para descutir.

Cormac McCarthy será, com certeza, o próximo Americano a ganhar o prêmio Nobel de Literatura.

A Guerra Eterna

Joe Haldeman, A Guerra Eterna, 1974
Muitos consideram este livro como um dos melhores romances de ficção científica já escritos. Haldeman, um veterano da guerra do Vietnam, originalmente escreveu este livro como uma alegoria a guerra; mas anos já se passaram desde sua publicação e o romance agora se tornou uma alegoria a todas as guerras americanas, principalmente a desastrosa invasão do Iraque. No entanto, este livro é sobre muito mais que a guerra: é sobre a vida militar entre as batalhas, quando os soldados voltam para casa e sentem as perdas e a alienação junto a uma população que não os apóia; é sobre os relacionamentos criados entre homems e mulheres no Exército (e suas perdas); e a política que nunca escolhe a paz.

Eu poderia escrever dezenas de páginas sobre o tema da homosexualiade neste livro. A estória, que se passa num futuro não tão distante, mostra um governo que cria uma leia apoiando relacionamentos homosexuais para impedir a explosão populacional. Logo, a lei vira mandatória e os heterosexuais são perseguidos como foras da lei. Eventualmente, seres humanos são criados dentro de incubadoras gigantes, programados para serem 100% homosexuais. O narrador da estória, um dos poucos heterosexuais que restam na humanidade, tem que se virar num mundo aonde nenhuma mulher está interessada nele; e onde muitos homems vivem lhe chavecando. O autor mostra o outro lado da moeda, como os heterosexuais se sentiriam se eles estivessem na minoria e sofressem o tipo de discriminações que estão acostumados a dispensar. Mas tudo isso é mostrado de maneira mais ou menos humorosa e sem demagogia, e o romance é, no final das contas, uma ótima aventura para ser devorada em poucos dias.

Filth Kiss, de C.J. Lines

Neste último final de semana aconteceu o lançamento do romance de horror Filth Kiss, de C.J. Lines. Esta notícia é importante pelos seguintes motivos: C.J. Lines é meu amigo ; este é seu primeiro livro; e este romance é imperdível!

Se você gosta de estórias de terror, e sabe ler em Inglês, visite seu site no Amazon para encomendar o livro. Você pode visitar o site da editora também para maiores informações. O ISBN do livro é 978-0955031458, caso queira encomendar de uma livraria.

Quando chega o inverno em Londres, não tem coisa melhor do que passar a noite lendo livros de suspense. Quem sabe um dia eu não traduzo Filth Kiss para o Português.

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