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David Beckham no quarto
Quando o jovem se muda finalmente para fora da casa dos pais, para morar com outros jovems da mesma idade, a primeira coisa que faz é cobrir as paredes de seu quarto com fotos de David Beckham de cueca. Ainda está naquela fase em que busca ídolos no mundo pop – alguém para poder se espelhar e encontrar inspiração.
À noite, passa horas na internet conversando com alemães gays em salas de bate papo. Cobrem uma vasta lista de assuntos até as luzes se apagarem, as cams serem ligadas e as portas dos quartos trancadas. Assim se perde a juventude.
Ao amanhecer, o jovem se assusta ao se olhar no espelho: descobre que agora têm cabelos loiros. As fotos de David Beckham parecem rir de si, esconder um segredo. Nos olhos de Beckahm ele se perde ao perceber pequenas fagulhas…

Aqui em Londres não tem roça de melancia. As que eles vendem nos mercadinhos perto de casa parecem não ter gosto de nada – ou então carregam um sabor de fruta velha. Viajam para a Inglaterra de outros países, outros continentes – onde as roças não sofrem tantos meses de frio pelo ano.
Uma vez visitei uma cartomante no Cinco Conjuntos, Londrina. Ela me recomendou poemas escritos no século 19 por um escravo brasileiro. Ou era um romance? Não me lembro mais – sei que era uma obra prima (hoje esquecida), daquelas que te surpreendem quando descrevem dois homens se beijando. Nada que conseguisse entrar no folclore brasileiro hoje em dia.
A melancia era a fruta predileta do Michael Jackson. Também é a minha – a única coisa que temos em comum.

Carrego comigo a Igreja Mundial do Poder de Deus. É uma casinha que encolheu com os anos até chegar ao seu tamanho atual: uma caixinha de pedra que cabe na palma da minha mão.
Quando espio por suas janelas, me sinto um deus romano. Vejo o pastor com os seus braços para cima, esbravejando e prometendo o fim do mundo. Vejo os rostos dos fiéis carregados de atenção e ignorância.
Viagei para a Holanda com minha pequena igreja no bolço e agora passeio pelas ruas de Amsterdam. Do alto de uma ponte assisto as celebrações galvanizando a cidade, preenchendo tudo de cor e alegria. Homens andam de mãos dadas e sem camiseta. Mulheres se beijam e abraçam crianças sentadas nos seus colos. Seres míticos andam de salto alto. Faz sol e me sinto de bem com a vida.
Embaixo da ponte, percebo dois jovens sentados juntos na beira do canal. São loiros, de corpos atléticos e rostos limpo de expressão. Talvez sejam um exemplo de paz de espírito. Os dois dividem o dia como irmãos, calmamente observando as celebrações.
Lhes observo com uma pontada de inveja – não tenho mais a juventude que eles carregam tão facilmente. Mas, ao mesmo tempo, fico feliz de ver sua amizade, a maneira fácil em que dividem sorrisos – parecem anjos nos agraciando com sua presença.
Quando um deles olha pra cima e me percebe, abro as minhas mãos e lhe mostro a pequena igreja. Com a distância, não sei se ele reconhece o que carrego. Sorrio e faço uma oferenda ao lindo casal: viro minhas mãos para baixo e deixo a igreja cair na água e desaparecer.

Manuel Jorge Marmelo, Os Fantasmas de Pessoa, 2004
Tentei ler este romance policial no ano passado quando lhe encontrei num sebo daqui de Londres e estava com vontade de matar saudades da língua portuguesa. Uma trama fina, perdida num exercício pós-moderno fraco onde uma estória vive dentro de outra, não conseguiu prender minha atenção e acabou me forçando a abandonar o livro.
Assisti oito meses depois a um documentário sobre a vida de Aleisteir Crowley, um dos personagens deste livro, chamado The Beast 666, que me fascinou e me fez retornar a esta narrativa. Munido desta nova curiosidade, achei a estória interessante embora sem muito sentido lá pelo final de suas 117 páginas. Não funciona como romance policial ou um estudo sobre Crowley e Pessoa, mas tem lá o seu charme na maneira que busca explorar e brincar com a maneira que textos são escritos (embora dependa muito do leitor conhecer um pouco dos personagens que inspiram a trama.)
Entardecer no Parque
Homens loiros correm pelos parques, cuecas brancas à vista. Pastor Jorgeval, montado em um palanque, professa o nada do retorno de Jesus. Uma bandeira estampada com o arco-íris balança acima de sua cabeça.
À noite, nos bosques crus, no cheiro de barro, atrás de árvores centenárias, nos centros urbanos que permitem a existência de parques, brilha a pele branca dos que se masturbam. Brilha os pelos negros dos lobisomens. Olhares trocados no escuro. O anonimato.
Um homem solitário passeia com seu fiel Labrador, ouvindo The Raveonettes no seu iPod. Relembra os anos 80 e suas novelas prediletas. Uma delas era Roque Santeiro. Foi criança então; agora é um homem no auge da sua idade, força… beleza.
Vale a pena ver de novo as sombras que passeiam entre as árvores, que desaparecem como miragens. São figuras que dividem algo em comum – uma busca animal que não pode ser controlada pela sociedade (construção frágil que balança no fio da navalha.) Fazem do amor uma memória para o amanhecer. Na cidade acordada, vivem para o próximo dia.
O parque Victoria está cheio de: árvores, bêbados, flores, grama, cachorros, beleza.
Bateu fome e cansaço. Fim de tarde, primavera. Os bêbados tentando pescar no lago do parque. Pessoas fazendo ginástica após o trabalho. Cisnes e patos à procura de comida. Cadê os pombos? Música do Bauhaus no meu ouvido, conferindo a tudo um ar tenebroso. Talvez este seja o último fim de tarde do planeta. Nosso último dia. A vida termina aqui, começa ali. Os mortos vivos se erguem do lago e caminham em minha direção (estou sentado num banquinho que fica de frente a água). Cheiro de cigarro no ar puro.
Casais passeam de mãos dadas. Estou com vontade de comer pão com manteiga. Tomar café com leite. Toddy. Pastel. Mergulhar na piscina. Férias eternas. Aquele sol de infância que não faz mal a ninguém.

Lobisomem
Originally uploaded by Roque Santeiro
Na pequena cidade de interior abriu uma boate de dançarinas sensuais. O acontecimento escandalisou os religiosos – a moral sagrada e popular do lugar. Às escondidas, os maridos e filhos da cidade celebraram a novidade; visitavam a casinha rosa quando podiam para ver as duas dançarinas recém chegadas mostrarem seus corpos ao som de Você Me Incendeia, um hit do momento.
As duas moças pareciam irmãs gêmeas na maneira que se portavam, na altura de seus corpos, nas suas risadas e sorrisos. No entanto, suas personalidades eram diferentes. Uma adorava a cor vermelha e os véus; era loira e um tanto séria. A outra preferia roupas justas e saltos altos; tinha pouco juízo.
Antes da platéia chegar, se vestiam num pequeno camarim atrás do palco. Aplicavam perfumes atrás das orelhas, nos punhos e nas solas dos pés; tinham ouvido dizer que isso dava sorte. Da porta do camarim, a dona da boate as observava como uma mãe. Lhes desejava boa sorte todas as noites antes de subirem ao palco.
Mal sabiam as duas dançarinas que uma maldição pairava sobre a cidade: uma criatura que andava as ruas desertas nas noites de lua cheia. Das sombras, esta criatura – um lobisomem – as espreitavam quando os shows terminavam e a boate esvaziava. A lua era a única testemunha de como ele cobiçava por tanta carne fresca. Babava feito pastor de igreja evangélica quando vê dinheiro. Delícia de tentação!
O lobisomem tinha que se aproveitar da noite para atacar; tinha que agarrar uma das moças e lhe levar aos fundos do cemitério antes do sol raiar. Com a chegada da alvorada, a maldição dissipava como uma névoa seca. O dia trazia sua normalidade que fazia os perigos da noite parecerem pesadelos de crianças. No entanto, o desejo ficava… escondido no fundo da alma até a lua cheia voltar.

Hosmany Ramos, Delitos Obsessivos, 2005
Nas mãos de Quentin Tarantino, estes contos policiais virariam grandes sucessos de bilheteria – filmes cheios de cenas sangrentas, mulheres fatais, crime e ação. Os contos seguem a fórmula tão amada por Tarantino: sexo, drogas e uma lista enorme de personagems nihilistas perdidos pelo submundo (neste caso, brasileiro.) Muitos dos contos focam personagems femininos que caem na vida do crime – com resultados variáveis. Agentes policiais são geralmente corruptos, prisões são antros de loucura e morte, e a falta de esperança pega na pele como uma doença incurável, mesmo quando os personagems se sentem acima da lei.
Ramos se inspira em sua experiência com criminosos e com a vida atrás das grades para dar vida aos contos (ele está preso desde a década de 70 por causa de uma lista longa de crimes). Virou sensação literária na França por causa de seus romances anteriores, o que talvez explique a injeção de personagems françeses em algums dos contos. Embora estes contos sejem uma leitura muitas vezes eletrizante, a narrativa nunca se eleva acimo do estilo pulp Americano que tanto copia.
Aquele ator que fazia o papel protagonista na novela Laços de Família agora aparece em todas as revistas de fofoca e sociedade. Continua lindo, agora na faixa dos 35 anos de idade, com um corpo malhado e moreno, dentes brancos e um sorriso aberto de engolir o mundo. Nunca lhe vêem com uma mulher no braço. Nunca se ouve falar que ele quer casar e ter filhos. Numa revista recente, ele aparece sorridente ao lado dos donos de uma pizzaria conceituada de São Paulo, vestindo uma camiseta roxa de seda justa que mostra o quanto vive na academia de ginástica.
Tantas festinhas, tantas conversas que não levam a nada. Numa noite fria na capital paulista, ele vê do outro lado do bar um homem loiro lhe observando. O homem sorri; seu rosto bronzeado tem uma beleza nórdica que lhe atrai. Trocam olhares durante a noite até que o homem se aproxima e se apresenta: se chama Guilherme e é o herdeiro milionário de uma família centenária. Vive em Paris.
Romance é coisa pesada para este ator global. Tem que tomar cuidado para que o paparazzi não lhe veja saindo de boates com homens; tem que manter seu segredo longe das más línguas que povoam os programas de fofoca na tarde televisiva. Nos braços de Guilherme, numa penthouse que fica acima da confusão da metrópole, sente pela primeira vez um sentimento de liberdade e proteção. Quando Guilherme lhe convida para um passeio em Paris, aceita sem hesitação.
Viajam em vôos diferentes. Mesmo na classe executiva, escondido atrás de óculos escuros, não escapa das fãs que pedem fotos e autógrafos.
Na noite de Paris, Guilherme lhe leva para jantar em seu restaurante favorito. Segura sua mão por cima da mesa, sem medo do que os outros fregueses possam falar. O ator fica com receios de ser reconhecido por algum brasileiro. Guilherme sorri e afugenta todos os seus medos. Lhe pede para abandonar a carreira artística no Brasil e morar em Paris.
O ator reflete na sua boa sorte, no amor que finalmente chegou à sua vida. Mas também não consegue parar de temer os comentários maldosos no Brasil, a falta que seu rosto fará nas revistas chiques. Guilherme é algums anos mais velho, nunca ligou para o que a elite brasileira pensava, e esta velho demais para se importar com o que os outros pensam de sua vida. Promete a seu amor muitos anos sossegados na capital francesa; verões no Mediterrâneo; viagems a Tokyo, Nova Iorque, Londres. O sonho é bom demais – como se fosse uma grande mentira perpretada por Deus. É melhor que qualquer papel de novela já lhe oferecido.
O ator estuda a beleza de Guilherme e se pergunta se conseguirão se amar até atingirem a velhice juntos.
José Saramago, o único escritor da língua portuguesa a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura (até agora), tem um blog aqui no WordPress. Vale a pena conferir. Ele está a caminho do Brasil neste momento, para a abertura de uma exposição celebrando sua vida e obra. Caro leitor, por favor vá no meu lugar e me conte depois como foi!
Conheço três de seus livros: Ensaio sobre a cegueira, Todos os nomes e O conto da ilha desconhecida. Gostei dos três; e agora que descobri que ele esta mantendo um blog, fiquei com vontade de sugerir uma de suas outras obras para o meu clube de leitura. Talvez O Evangelho segundo Jesus Cristo. O meu clube esta precisando de uma leitura bem controversial para botar fogo nos ânimos de todos (tem coisa melhor que religião para fazer isso?)











