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Aqui em Londres não tem roça de melancia. As que eles vendem nos mercadinhos perto de casa parecem não ter gosto de nada – ou então carregam um sabor de fruta velha. Viajam para a Inglaterra de outros países, outros continentes – onde as roças não sofrem tantos meses de frio pelo ano.
Uma vez visitei uma cartomante no Cinco Conjuntos, Londrina. Ela me recomendou poemas escritos no século 19 por um escravo brasileiro. Ou era um romance? Não me lembro mais – sei que era uma obra prima (hoje esquecida), daquelas que te surpreendem quando descrevem dois homens se beijando. Nada que conseguisse entrar no folclore brasileiro hoje em dia.
A melancia era a fruta predileta do Michael Jackson. Também é a minha – a única coisa que temos em comum.
Entardecer no Parque
Homens loiros correm pelos parques, cuecas brancas à vista. Pastor Jorgeval, montado em um palanque, professa o nada do retorno de Jesus. Uma bandeira estampada com o arco-íris balança acima de sua cabeça.
À noite, nos bosques crus, no cheiro de barro, atrás de árvores centenárias, nos centros urbanos que permitem a existência de parques, brilha a pele branca dos que se masturbam. Brilha os pelos negros dos lobisomens. Olhares trocados no escuro. O anonimato.
Um homem solitário passeia com seu fiel Labrador, ouvindo The Raveonettes no seu iPod. Relembra os anos 80 e suas novelas prediletas. Uma delas era Roque Santeiro. Foi criança então; agora é um homem no auge da sua idade, força… beleza.
Vale a pena ver de novo as sombras que passeiam entre as árvores, que desaparecem como miragens. São figuras que dividem algo em comum – uma busca animal que não pode ser controlada pela sociedade (construção frágil que balança no fio da navalha.) Fazem do amor uma memória para o amanhecer. Na cidade acordada, vivem para o próximo dia.

Lobisomem
Originally uploaded by Roque Santeiro
Na pequena cidade de interior abriu uma boate de dançarinas sensuais. O acontecimento escandalisou os religiosos – a moral sagrada e popular do lugar. Às escondidas, os maridos e filhos da cidade celebraram a novidade; visitavam a casinha rosa quando podiam para ver as duas dançarinas recém chegadas mostrarem seus corpos ao som de Você Me Incendeia, um hit do momento.
As duas moças pareciam irmãs gêmeas na maneira que se portavam, na altura de seus corpos, nas suas risadas e sorrisos. No entanto, suas personalidades eram diferentes. Uma adorava a cor vermelha e os véus; era loira e um tanto séria. A outra preferia roupas justas e saltos altos; tinha pouco juízo.
Antes da platéia chegar, se vestiam num pequeno camarim atrás do palco. Aplicavam perfumes atrás das orelhas, nos punhos e nas solas dos pés; tinham ouvido dizer que isso dava sorte. Da porta do camarim, a dona da boate as observava como uma mãe. Lhes desejava boa sorte todas as noites antes de subirem ao palco.
Mal sabiam as duas dançarinas que uma maldição pairava sobre a cidade: uma criatura que andava as ruas desertas nas noites de lua cheia. Das sombras, esta criatura – um lobisomem – as espreitavam quando os shows terminavam e a boate esvaziava. A lua era a única testemunha de como ele cobiçava por tanta carne fresca. Babava feito pastor de igreja evangélica quando vê dinheiro. Delícia de tentação!
O lobisomem tinha que se aproveitar da noite para atacar; tinha que agarrar uma das moças e lhe levar aos fundos do cemitério antes do sol raiar. Com a chegada da alvorada, a maldição dissipava como uma névoa seca. O dia trazia sua normalidade que fazia os perigos da noite parecerem pesadelos de crianças. No entanto, o desejo ficava… escondido no fundo da alma até a lua cheia voltar.
Amy assombra Londres como uma vela no breu. Mora em Camden Town, reduto dos astros do rock’n'roll que caíram do céu. Tem milhões em sua conta bancária mas vive numa casa pequena que comprou com a ajuda do pai (taxista londrino a mais de trinta anos) no início da carreira de cantora. Amy anda pelas ruas de Camden, sem rumo, sem idéia do que fazer com sua vida emaranhada. Esbarra nos tristes adolecentes que se perderam por ali tambem, que entraram nas ruelas vitorianas e nunca mais saíram.
Cabelos desgrenhados, soltos. Olhos negros e perdidos nos rostos que lhe passam pela frente.
Uma voz de fantasma que pertence a outra era vive dentro de si. Canta sozinha e não percebe os olhares atentos que lhe seguem pelas calçadas sujas de McLixo, cerveja e vômito. Entra num buteco e pede um café. A bebida é amarga, forte, com gosto de peixe. Mata as horas da madrugada no buteco, saindo as vezes para fumar um cigarro, olhar a noite, procurar amigos nos bêbados cambaleando pelas sombras que se perdem no bairro.
Vestida de preto – sempre. Uma vez ou outra um lenço vermelho prendendo os cabelos, batom cor de sangue na boca.
Uma semana à toa em casa, movido pela ansiedade. Desemprego faz isso com a pessoa. Pelo menos fico em casa sem gastar um tostão. Ouço a rádio tocar os hits do momento. Uma estação só toca música de bandas com menos de 25 anos de idade. Outra toca música clássica. Outra é especialista em hits dos anos 80. Pulo de uma estação pra outra, sem encontrar oque quero. Falta originalidade, novidade.
Fim de noite, quinta-feira. Frio lá fora, mas um bafo aqui dentro. Preguiça de abrir as janelas e deixar o oxigênio entrar. Deixei algumas memórias lá fora também e estou com medo delas entrarem e me pegarem de refém. Vai ter sequestro relâmpago.
Lixo na TV, livros que dão sono, horas até a meia noite, um vizinho que bate o pé, um prédio em Londres, uma vista maravilhosa (você nem imagina as luzes que vejo da minha janela), um passeio planejado para este fim de semana (no cemitério ao lado.)
Meu namorado me deu uma câmera fotográfica, Holga 120, de presente de aniversário, Setembro passado. Somente hoje fui mexer com a câmera e aprender a usá-la. Quero tirar fotos no Cemitério Tower Hamlets: de seus túmulos vitorianos; das flores abrochando; do mato; dos corvos; das árvores tristes; dos amigos que me acompanharão.
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Neste último final de semana aconteceu o lançamento do romance de horror Filth Kiss, de C.J. Lines. Esta notícia é importante pelos seguintes motivos: C.J. Lines é meu amigo ; este é seu primeiro livro; e este romance é imperdível!
Se você gosta de estórias de terror, e sabe ler em Inglês, visite seu site no Amazon para encomendar o livro. Você pode visitar o site da editora também para maiores informações. O ISBN do livro é 978-0955031458, caso queira encomendar de uma livraria.
Quando chega o inverno em Londres, não tem coisa melhor do que passar a noite lendo livros de suspense. Quem sabe um dia eu não traduzo Filth Kiss para o Português.
No último capítulo de Roque Santeiro, o público finalmente descobriu quem era o lobisomem: Professor Astromar. Aqui está o video que assustou muitas crianças na época:
Interessante como um crucifixo aparece no final, quando a transformação do Professor se completa. Hoje em dia, Professor Astromar é com certeza pastor em alguma Igreja Universal do Reino de Deus.

O lobisomem é uma criatura mitológica nascida na Europa. É primeiro mencionado nos escritos de Petronius, na Grécia antiga. Como várias mitologias Européias, foi trazida para o Brasil com os imigrantes e adicionada ao folclore brasileiro. Acho que uma das grandes razões que a novela Roque Santeiro emplacou foi por causa do personagem do lobisomem. O país foi fisgado pelo mistério de quem poderia ser a tal criatura que amedrontava a cidade de Asa Branca.
Nos anos 80, era meio moda explorar o imaginário de horror no mundo pop. Michael Jackson fez isso com seu vídeo Thriller; e um grande sucesso de bilheteria na época foi o filme Um Lobisomem Americano em Londres (mostrando pela primeira vez, com a ajuda de efeitos especiais de última geração, a transformação inteira de um homem para um lobisomem).
Na novela Roque Santeiro, o lobisomem simbolizava a repressão sexual em que a cidade vivia até chegar a boate Sexus, os artistas de cinema e o próprio Roque. Esta repressão sexual era de natureza religiosa (como sempre é). Professor Astromar, um intelectual entediante e autor de péssimos poemas, era o tal do lobisomem. Encaixava-se perfeitamente na teoria literária da crítica Camille Paglia, que vê o mundo dividido entre duas correntes – a energia racional e estéril de Apolo, e a energia instintiva e sexual de Dionísio. Durante o dia, Professor Astromar era regido pelo poder plácido de Apolo. Nas noites de lua cheia, conseguia libertar sua libido com a ajuda de Dionísio e fazer festa com as dançarinas da boate Sexus.












