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Ele apanhou o dia inteiro. As chicotadas cortaram sua carne e, à noite, não lhe deixaram dormir: amarraram suas mãos e lhe ergueram contra a parede de pedras. Um rastro de sangue desceu suas costas, manchou os cantos da prisão.
No dia da sua execução, lhe forçaram a carregar a própria cruz pela cidade. O povão xingou, cuspiu, deu risada. Crianças jogaram pedras do alto de árvores e postes. O condenado seguiu em frente sem reclamar, sua força perdendo-se pelas ruas sujas.
Encontrou esperança na mulher que abandonou a multidão e se aproximou: a prostituta amada.
Ela viu como seus pés sangravam, como lhe era difícil andar. Os soldados a permitiram se ajoelhar à sua frente com uma vasilha contendo óleos e ervas. Lavou as feridas dos pés grandes e ossudos do condenado. Soltou os cabelos longos, castanhos e lustrosos, que o homem sempre adorara tocar; lhes usou para esfregar e secar os pés do único homem que amara.
Vou e volto a pé do trabalho. Atravesso Victoria Park; às vezes pego o ônibus 277 se está chovendo. Sempre tem aquele indiano magrelo de terno e óculos sentado no fundo. Às vezes ele ouve um iPod. As vezes ele olha para mim com um mínimo de curiosidade.
Outro dia passei perto de policiais tomando conta de uma ruela – cena do esfaqueamento de um garoto de 14 anos, morto por uma gangue de moleques da mesma idade. Acontece crime perto do meu trabalho. Acontece. Londres não é aquele paraíso que as pessoas no Brasil imaginam. Tem desemprego por aqui; aperto; altos preços e custo de vida.
Mesmo assim, depois de sete anos nesta cidade, aprendi a amá-la.
Caminhando pelo parque, avisto minha janela na torre e o céu azul.











