Lhe escreveu uma carta de amor.  Lhe desejou um feliz aniversário.  Sabia que não haveria resposta.  Mandou a carta de qualquer maneira.  Imaginou a carta atravessando o Oceano Atlântico como uma esquadra à deriva; imaginou a carta passando de uma mão à outra, depois enterrada no fundo de uma bolsa de carteiro.  Talvez terminasse sua viagem na cozinha errada, aberta por mãos estrangeiras e curiosas; ou então numa pilha de cartas de uma residência vazia, destinada a mofar e amarelar com o tempo.  Palavras românticas perdidas para sempre.

Depois de uma semana, começou a esquecer o que tinha escrito.  Sempre se orgulhara de sua memória prodígia, de sua facilidade de lembrar tudo.  Agora via a suas próprias palavras – aquelas criações poéticas que dariam inveja à Pablo Neruda – sumirem por ralo abaixo.  Imaginou o amado do outro lado do mundo recebendo a carta; mas não conseguiu imaginar seu rosto, sua reação ao abrir o envelope e ler o conteúdo.

E se a carta estivesse cheia de ódio ao invés de amor?  E se estivesse esquecendo todas as palavras porque tinha cometido um erro, um ato brutal contra seu amado?  Tentou telefonar e checar se a carta já tinha chegado mas a linha só dava ocupado.  Visitou uma cartomante cigana que lhe previu um futuro nebuloso.  Andou sem parar pelas ruas da cidade, tentando limpar a cabeça e lembrar o conteúdo da carta.  Nem pãozinho de padaria e nem cafézinho ajudava; muito menos pastel de feira, suco de melancia, pão de queijo ou kibe.  A barriga crescia em proporção com o desaparecimento da memória.

Um dia, esqueceu aonde morava.  Esqueceu do amado, da carta.  Esqueceu de tudo, menos das praias da cidade, e do mar que sempre brilhava no horizonte com o pôr-do-sol.