Lhe escreveu uma carta de amor. Lhe desejou um feliz aniversário. Sabia que não haveria resposta. Mandou a carta de qualquer maneira. Imaginou a carta atravessando o Oceano Atlântico como uma esquadra à deriva; imaginou a carta passando de uma mão à outra, depois enterrada no fundo de uma bolsa de carteiro. Talvez terminasse sua viagem na cozinha errada, aberta por mãos estrangeiras e curiosas; ou então numa pilha de cartas de uma residência vazia, destinada a mofar e amarelar com o tempo. Palavras românticas perdidas para sempre.
Depois de uma semana, começou a esquecer o que tinha escrito. Sempre se orgulhara de sua memória prodígia, de sua facilidade de lembrar tudo. Agora via a suas próprias palavras – aquelas criações poéticas que dariam inveja à Pablo Neruda – sumirem por ralo abaixo. Imaginou o amado do outro lado do mundo recebendo a carta; mas não conseguiu imaginar seu rosto, sua reação ao abrir o envelope e ler o conteúdo.
E se a carta estivesse cheia de ódio ao invés de amor? E se estivesse esquecendo todas as palavras porque tinha cometido um erro, um ato brutal contra seu amado? Tentou telefonar e checar se a carta já tinha chegado mas a linha só dava ocupado. Visitou uma cartomante cigana que lhe previu um futuro nebuloso. Andou sem parar pelas ruas da cidade, tentando limpar a cabeça e lembrar o conteúdo da carta. Nem pãozinho de padaria e nem cafézinho ajudava; muito menos pastel de feira, suco de melancia, pão de queijo ou kibe. A barriga crescia em proporção com o desaparecimento da memória.
Um dia, esqueceu aonde morava. Esqueceu do amado, da carta. Esqueceu de tudo, menos das praias da cidade, e do mar que sempre brilhava no horizonte com o pôr-do-sol.












3 comments
Comments feed for this article
Junho 23, 2008 às 18:28
Arthur
Houve uma época em que acreditei que “o amor atravessava os mares” pois, por algum tempo, atravessou mesmo. Separado geograficamente de meu companheiro, tínhamos o “pacto” de escrever, além dos e-mails, uma carta, ao menos, por semana. Considerando a eficácia dos correios europeus, trocávamos as cartas por e-mail (como anexo, para ficar mais emocionante). Olhe que muitas vezes tive que abrir as tais cartas (tenho todas até hoje) para ter certeza do que tinha escrito. Que perigo… Adorei seu texto!
Junho 24, 2008 às 12:37
Albert
Bacana, mas corrige o “preveu”. No mais, muito bom . E já aconteceu comigo.
Junho 24, 2008 às 16:38
Roque Santeiro
Valeu Albert! Meu português anda super enferrujado – efeito colateral de morar fora do Brasil por tanto tempo. Fico feliz que gostou.
Oi Arthur, que bom também que você gostou do texto. Meus textos recentes foram baseados nas frases usadas para encontrar meu blog. Este texto, por exemplo, nasceu da busca “carta de amor”.