Nas cidades do interior do Brasil, tem aquela semana do ano que Jesus desce pelas ruas carregado pelos fiéis.  Passa debaixo das lanterninhas e bandeiras celebrando a festa; passa pelas barraquinhas que vendem santinhos, medalhas, doces e salgados feitos em casa, brinquedos de plástico, roupas em promoção, tapetes, vassouras, buginganças além da imaginação.

O povo segue Jesus (ou Maria, ou um dos santos, dependendo da cidade) com aquela cara de fome, de alegria, de tédio.  Muitos rostos se misturam na multidão.  Nasce das vozes uma canção sobre o menino do céu.  A canção corre pelo povo como se tivesse sido planejada desde o começo.  Tudo improvisado, mas repetido anualmente.

Corre um boato, depois, que casas foram assaltadas enquanto o povo celebrava a chegada da estátua.  Ladrões de fora se aproveitaram da fé para fazerem a festa.  Será que Deus lhes perdoará?  Será que Deus viu, distraido como estava também com a procissão?  O céu claro, vazio de nuvems, não dá resposta.  A polícia corre atrás, persegue, tenta prender os ladrões.  Sai tiroteio.  Ninguém é ferido.  Os ladrões se safam.