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Os publicitários da Armani tiveram a idéia feliz de escolherem David Beckham como garoto propaganda da marca. Acho que as fotos que foram lançadas hoje (como esta acima) acertam em cheio o público gay e hetero. Infelizmente para eles, acho o tipo de cueca que ele esta usando super desconfortável. Mas não vou reclamar da beleza desta foto…
Lhe escreveu uma carta de amor. Lhe desejou um feliz aniversário. Sabia que não haveria resposta. Mandou a carta de qualquer maneira. Imaginou a carta atravessando o Oceano Atlântico como uma esquadra à deriva; imaginou a carta passando de uma mão à outra, depois enterrada no fundo de uma bolsa de carteiro. Talvez terminasse sua viagem na cozinha errada, aberta por mãos estrangeiras e curiosas; ou então numa pilha de cartas de uma residência vazia, destinada a mofar e amarelar com o tempo. Palavras românticas perdidas para sempre.
Depois de uma semana, começou a esquecer o que tinha escrito. Sempre se orgulhara de sua memória prodígia, de sua facilidade de lembrar tudo. Agora via a suas próprias palavras – aquelas criações poéticas que dariam inveja à Pablo Neruda – sumirem por ralo abaixo. Imaginou o amado do outro lado do mundo recebendo a carta; mas não conseguiu imaginar seu rosto, sua reação ao abrir o envelope e ler o conteúdo.
E se a carta estivesse cheia de ódio ao invés de amor? E se estivesse esquecendo todas as palavras porque tinha cometido um erro, um ato brutal contra seu amado? Tentou telefonar e checar se a carta já tinha chegado mas a linha só dava ocupado. Visitou uma cartomante cigana que lhe previu um futuro nebuloso. Andou sem parar pelas ruas da cidade, tentando limpar a cabeça e lembrar o conteúdo da carta. Nem pãozinho de padaria e nem cafézinho ajudava; muito menos pastel de feira, suco de melancia, pão de queijo ou kibe. A barriga crescia em proporção com o desaparecimento da memória.
Um dia, esqueceu aonde morava. Esqueceu do amado, da carta. Esqueceu de tudo, menos das praias da cidade, e do mar que sempre brilhava no horizonte com o pôr-do-sol.
Nas cidades do interior do Brasil, tem aquela semana do ano que Jesus desce pelas ruas carregado pelos fiéis. Passa debaixo das lanterninhas e bandeiras celebrando a festa; passa pelas barraquinhas que vendem santinhos, medalhas, doces e salgados feitos em casa, brinquedos de plástico, roupas em promoção, tapetes, vassouras, buginganças além da imaginação.
O povo segue Jesus (ou Maria, ou um dos santos, dependendo da cidade) com aquela cara de fome, de alegria, de tédio. Muitos rostos se misturam na multidão. Nasce das vozes uma canção sobre o menino do céu. A canção corre pelo povo como se tivesse sido planejada desde o começo. Tudo improvisado, mas repetido anualmente.
Corre um boato, depois, que casas foram assaltadas enquanto o povo celebrava a chegada da estátua. Ladrões de fora se aproveitaram da fé para fazerem a festa. Será que Deus lhes perdoará? Será que Deus viu, distraido como estava também com a procissão? O céu claro, vazio de nuvems, não dá resposta. A polícia corre atrás, persegue, tenta prender os ladrões. Sai tiroteio. Ninguém é ferido. Os ladrões se safam.

Jorge Amado, Capitães da Areia, 1937
Quando a primeira edição de Capitães da Areia apareceu em 1937, foi apreendida e queimada em praça pública pelas autoridades do Estado Novo. O romance conta a estória de um grupo de moleques que vivem nas ruas de Salvador aprontando roubos e brigas (tipo as crianças no Cidade de Deus). Mas, na verdade, o objetivo principal de Amado ao escrever este romance era atacar os oligarcas do Nordeste que mantinham os pobres num buraco fundo, e a igreja corrupta que fingia não ver a pobreza. Atacou com este romance que pintava as crianças como potenciais soldados de uma revolução comunista no Brasil.
Os meninos abandonados vivem num trapiche velho na praia, usando o dia para “trabalharem” nas ruas de Salvador. São liderados por um garoto loiro de dezesseis anos, Pedro Bala, filho de um líder trabalhista morto anos antes num confronto com as autoridades. Pedro lidera vários meninos que por uma razão ou outra terminaram na rua. Às vezes recebem visita e ajuda de um padre com tendências comunistas, ou de uma Mãe-de-Santo e de um trabalhador do cais que fora amigo do pai de Pedro.
Algumas das cenas no livro são chocantes e controversiais ainda hoje: os meninos transam ums com os outros na falta de mulher, ou estupram meninas que fazem a besteira de atravessar a areia à noite. Quando os meninos caem nas mãos de mulheres mais velhas e ricas, abusam de sua boa vontade para lhes roubar ou formar relações sexuais – são descritos como homens amargurados presos em corpos de meninos.
O que decepciona no romance é o jeito que Jorge Amado tenta enfiar o Comunismo goela abaixo do leitor. Ele usa os meninos e o padre bonzinho como símbolos da luta dos trabalhadores contra os capitalistas de uma maneira que não permite os personagems se desenvolverem com a trama. Amado abusa também do sentimentalismo, especialmente quando a menina Dora se junta aos meninos e vira uma mãe para eles. Mas fora isso, o livro prende o leitor do começo ao fim num enredo cheio de ação e suspense (atípico de muita coisa que Amado escreveu depois.)











