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Jorgeval era aquele típico pastor de igreja evangélica: roubava no domingo para poder aproveitar a semana sem neuras com falta de grana no bolso. Usava bem o dinheiro doado pelo povinho pobre e desinformado: comprava carros importados, relógios caros, pulseiras tipo cafetão, e muita – mas muita – caipirinha. É claro que tomava todo o cuidado do mundo para não ser reconhecido pelos ignorantes que frequentavam sua igreja – morria de medo de ter sua vida dupla desmascarada. Usava perucas, disfarces, óculos escuro, carro blindado com vidro fumê quando saia pra balada. Vivia na paranóia geral.

Jorgeval tocava aquela vida de santinho do pau oco já fazia algums anos. Começava a achar que nunca seria descoberto. E como poderiam descobrir a verdade quando se especializava a cada ano no roubo e na mentira? As vezes até acreditava nas baboseiras que lia na bíblia e falava em voz alta na igreja (que antes fora um salão de bingo.) Sua mãe, que não perdia um sermão e sempre fazia questão de sentar na primeira fila, chorava por horas a fio quando via seu filho (que ela sonhava um dia virar um homem religioso de verdade) gastando o dízimo dos outros em prostitutas baratas e garrafas de uísque falsificado do Paraguay.

Certo dia, Jorgeval passeava na praia de Ipanema numa tarde ensolarada, feliz da vida. Acabara de cometer vários pecados e fazia planos para viajar para os Estados Unidos pra fazer compras em Nova Iorque. Foi quando percebeu uma figura no horizonte, vindo em sua direção. Foram se aproximando um do outro. Jorgeval percebeu que era um homem de corpo torneado, moreno e bonito. Usava uma sunguinha branca como a nuvem mais angelical do céu. O rapaz percebeu que Jorgeval lhe olhava; sorriu marotamente.

Foi como se um relâmpago atingisse Jorgeval naquele momento. Percebeu na beleza pura do rapaz algo que não tinha – algo que tinha jogado fora a muito tempo atrás. Seria aquele rapaz um anjo vindo para lhe castigar, para lhe dar uma mensagem de Deus? Seria ele um anjo para lhe mostrar um novo caminho?

O rapaz chegou a virar a cabeça quando passou, como que checando se Jorgeval estava realmente interessado nele. Jorgeval sentiu que chegara numa encruzilhada. Ou seguia aquele rapaz – aquele Anjo Gabriel dos Trópicos – ou continuava indo em frente, fazendo maldade aos outros e destruindo sua alma. O rapaz caminhava na direção do pôr-do-sol; um halo dourado lhe cobria o corpo. Jorgeval respirou fundo e foi em direção à luz.

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