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The Raspberry Reich

Assisti a meu primeiro filme de Bruce LaBruce: The Raspberry Reich. LaBruce pega uma estória fraquinha de terroristas da extrema esquerda e adiciona pornografia e propaganda revolucionária. Ele cobre uma parede, por exemplo, com uma imagem gigante de Che Guevara e filma um jovem de etnia ambígua encostado perto, se masturbando; ou ele filma dois homens se beijando, sem camiseta, numa praça para a raiva e surpresa de alemães passando por ali. O filme, de uma hora e meia, está repleto de péssimo diálogo, slogans para todos os lados (“A Intifada Homosexual”, “A Revolução é Meu Namorado”), e várias situações onde os atores podem demonstrar sua experiência na indústria pornográfica gay.

Nós assistimos a versão softporn, onde uma cena de sexo oral entre um terrorista e seu refém é coberto por uma foto de Tony Blair e o slogan “Bliar”; ou uma cena entre a líder dos terroristas e seu namorado é censurada por uma das várias frases idióticas de George Bush Jr. Pensei que seria o tipo de filme que me encheria o saco, mas acabei sendo seduzido por seu humor juvenil.

As influências de Andy Warhol e John Waters estão presentes, assim como as influências em outros artistas (a banda Stereo Total, se inspirou no filme para uma faixa no seu novo álbum). Por um lado, o filme é leve demais (na medida do possível num porno) e quase sentimental. Mas, por outro lado, seu humor em relação à política, especialmente em se tratando dos direitos dos homosexuais, é incrivelmente engraçado. Eu gostaria de entender um pouco mais do assunto mas não conheço suficientemente bem a história do cinema gay para entender todas suas influências.

De acordo com LaBruce, os alemães são blasé com a pornografia – várias celebridades participam em filmes do tipo sem a imprensa se escandalizar. Ao mostrar a pornografia como um galho da comédia política, dentro de uma sociedade progressiva como a alemã, LaBruce arranca a máscara assustadora do porno e lhe mostra como uma fonte genuína de humor. Não é nada novo no mundo porno (como pode ser visto, por exemplo, nos títulos de vários filmes – “Forest Hump” ou “I Know Who You Blew Last Summer”), mas é uma idéia nova quando penso em suas implicações (e aplicações) ao cinema popular.

Todo brasileiro que vem a Londres pela primeira vez se surpreende com a quantidade de brasileiros vivendo aqui. Em toda esquina parece ter um brasileiro segurando panfleto de escola de inglês, ou falando mal de alguém com quem trabalha/mora. Certos ônibus, como o número 6, vivem cheios de brasileiros falando alto ou fingindo que não são brasileiros. Na Oxford Street, uma das áreas mais movimentadas da cidade, tem um restaurante brasileiro; e vários mercadinhos espalhados pela cidade vendem produtos típicos – como Toddy e farofa – para a galera matar saudade da terrinha.

No Brasil, estamos acostumados a pensar em nossos compatriotas como pessoas amigáveis, mas quando o brasileiro sai do Brasil, tende a se fechar e ficar na sua, ou usar outros brasileiros para pedir informação ou emprego. Cansei de estar na rua, conversando com amigo brasileiro, para ser de repente interrompido por um carioca procurando banheiro ou baiano procurando loja de sapato. Talvez sintam mais confiança na ajuda de alguém que compartilhe a língua nativa do que num inglês de cara fechada.

Brasileiro tem pra todo lado, mas os bairros com maiores concentrações são Kensal Rise e Clapham. Quando o Brasil venceu a Copa, milhares de brasileiros se juntaram no centro da cidade e comemoraram em Trafalgar Square, pulando inclusive na fonte da praça. Dizem que Londres tem uma das maiores concentrações de brasileiros fora do Brasil. Certamente não me surpreenderia.

Hoje, cheguei em casa com vontade de ligar a TV e assistir novela. O inverno chegou, trazendo a escuridão típica de Londres. Nestas horas, fico com saudades do sol trópico, das banalidades das 8 da noite, da energia que temos em abundância no Brasil quando o tempo está bom. Fica difícil encontrar disposição neste frio; e fica mais fácil de entender porque tantos brasileiros no exterior não se desgrudam.

No último capítulo de Roque Santeiro, o público finalmente descobriu quem era o lobisomem: Professor Astromar. Aqui está o video que assustou muitas crianças na época:

Interessante como um crucifixo aparece no final, quando a transformação do Professor se completa. Hoje em dia, Professor Astromar é com certeza pastor em alguma Igreja Universal do Reino de Deus.

Amanheceu um dia lindo em Londres. Depois de uma semana de chuva e tempo fechado, temos um pouco de sol. Que bom. Um amigo de São Paulo está me visitando no momento; acho que vamos aproveitar este domingo ensolarado para caminhar por Londres – talvez descansar na grama de um parque ou comprar uma cerveja e sentar num bar.

Fomos ontem à Galeria Serpentine, um espaço para exibições de artistas plásticos, situada dentro de Hyde Park. Fomos num grupo grande de brasileiros. O show (Drawing Restraint) era do artista plástico Matthew Barney, marido da cantora Björk. O lugar estava cheio: pessoas bem cheirosas se espremiam para ver vídeos de Matthew pulando e pintando um teto, ou pendurado num navio baleeiro japonês rabiscando num papel. Em outras salas haviam pequenas fotos e desenhos de criaturas mitológicas (algumas usadas no filme Drawing Restraint 9, do mesmo artista), e tambem “esculturas” simulando a caça de baleias.

Pavilhão Serpentine Gallery

Ao lado do Serpentine Gallery tem um pavilhão criado pelos arquitetos Olafur Eliasson e Kjetil Thorsen. O filme Drawing Restraint 9 é mostrado dentro do pavilhão durante certas horas do dia. Infelizmente não chegamos a tempo para assisti-lo. Após uma olhada no trabalho de Barney, resolvemos atravessar o parque e sentar num pub em Notting Hill – beber, comer batatinhas salgada e bater papo. Não tem nada mais gostoso que passar uma tarde com um grupo de amigos brasileiros, matando saudade do Brasil.

Lobisomem

O lobisomem é uma criatura mitológica nascida na Europa. É primeiro mencionado nos escritos de Petronius, na Grécia antiga. Como várias mitologias Européias, foi trazida para o Brasil com os imigrantes e adicionada ao folclore brasileiro. Acho que uma das grandes razões que a novela Roque Santeiro emplacou foi por causa do personagem do lobisomem. O país foi fisgado pelo mistério de quem poderia ser a tal criatura que amedrontava a cidade de Asa Branca.

Nos anos 80, era meio moda explorar o imaginário de horror no mundo pop. Michael Jackson fez isso com seu vídeo Thriller; e um grande sucesso de bilheteria na época foi o filme Um Lobisomem Americano em Londres (mostrando pela primeira vez, com a ajuda de efeitos especiais de última geração, a transformação inteira de um homem para um lobisomem).

Na novela Roque Santeiro, o lobisomem simbolizava a repressão sexual em que a cidade vivia até chegar a boate Sexus, os artistas de cinema e o próprio Roque. Esta repressão sexual era de natureza religiosa (como sempre é). Professor Astromar, um intelectual entediante e autor de péssimos poemas, era o tal do lobisomem. Encaixava-se perfeitamente na teoria literária da crítica Camille Paglia, que vê o mundo dividido entre duas correntes – a energia racional e estéril de Apolo, e a energia instintiva e sexual de Dionísio. Durante o dia, Professor Astromar era regido pelo poder plácido de Apolo. Nas noites de lua cheia, conseguia libertar sua libido com a ajuda de Dionísio e fazer festa com as dançarinas da boate Sexus.

OzBus é uma nova agência de viagens que promove viagens de ônibus entre Londres e Sydney, Australia. O primeiro ônibus partiu de Londres no dia 16 de Setembro, carregando pessoas de várias idades e profissões, incluindo uma jornalista do Guardian. A cada duas semanas, esta jornalista escreverá uma reportagem detalhando o progresso da viagem. A primeira parte de sua reportagem está aqui.

Seria demais fazer uma viagem destas. A idéia de ficar sentado por 84 dias não me agrada mas, em compensação, quantas pessoas interessantes e aventuras devem estar no calendário destes passageiros. Em viagens deste tipo, as pessoas logo ficam amigas, ajudam umas as outras, se apaixonam, trocam massagens, etc. Se aprende muito sobre pessoas que vem de mundos diferentes do seu, sem contar as centenas de pessoas que você acaba conhecendo pelos países que vai passando.